Questão linguística de vida ou morte

Xibolete SiboleteÉ interessante como os efraimitas agiam em tempos de guerra. Eles não se juntavam aos seus irmãos na guerra, mas se a vitória fosse dos israelitas eles partiam para guerrear contra seus irmãos. “Por que não chamaram a gente? Agora não temos participação na glória e nos despojos!” Quando Gideão derrotou os midianitas, os efraimitas se indignaram por não fazer parte da vitoriosa guerra (Juízes 8:1-3), apesar de haver duas convocações à guerra (Jz 6:35; 7:23). Gideão pacificamente acalmou os ânimos e os efraimitas voltaram contentes.

Entretanto, quando os efraimitas agiram do mesmo modo com Jefté, não foram felizes. Jefté ficou indignado e pelejou contra eles, com o seu exército bloqueou as passagens do rio Jordão para evitar que os efraimitas sobreviventes pudessem escapar. Todo o indivíduo que pretendesse atravessar o rio era interceptado com uma pergunta: “você é efraimita?”, se a resposta fosse não, eles exigiam que fosse pronunciada a palavra “xibolete“. Como os efraimitas não tinham o fonema /x/ no seu dialeto para produzir o som /chi/, só conseguiam pronunciar /si/. Assim, os efraimitas pronunciavam “sibolete“, sendo facilmente reconhecidos e mortos nos vaus do Jordão. (Vf. Juízes 12:1-6)

A pronúncia do termo Xibolete, ou chibolete, foi usada para identificar um grupo linguístico. O vocábulo Xibolete é a transliteração do termo hebraico schibbolet que alguns traduzem por “grão de cereal”, outros por “torrente de água”.

No campo da linguística, pela classificação das consoantes, quando pronunciamos o “S” as cordas vocais vibram produzindo uma consoante sonora. Noutros casos, as cordas vocais não vibram, produzindo-se assim uma consoante surda. Esta acaba por ser a diferença básica entre os dois fonemas que determinaram o destino dos efraimitas. O fonema “X”, que não existia no dialeto dos efraimitas, é uma consoante constritiva fricativa surda. Desta forma, o aparelho fonador substitui a fricativa surda pelo “S”, que é uma constritiva fricativa sonora .

Para infelicidade dos efraimitas, o aparelho fonador deles só reconhecia a fricativa sibilante [s] no lugar da fricativa chiada [ch]. Devido a essa variante fonética foram derrotados nos vaus do rio Jordão, ao todo morreram 42.000 efraimitas e a guerra acabou.

Essa estratégia de guerra foi usada nas revoluções de 1893 e de 1923, no Sul do Brasil, a forma utilizada para identificar os mercenários uruguaios era através da pronúncia de termos iniciados com a consoante /J/, “jota“ do alfabeto português, como João, José, Jogo, etc. ou do termo “pauzinhos”. Em ambos os casos, os uruguaios apresentavam sérias dificuldades, pois, como falantes de espanhol as realizações fonéticas produziam-se como “iôta” ou “paucinhos”, já que a letra “j” não se realiza foneticamente no espanhol e o sufixo “zinho” ganha forma como “cinho”.

Outro caso semelhante ocorreu no massacre das Vésperas Sicilianas, em 1282. Os sicilianos pediam para os soldados franceses pronunciar o lexema ciceri (uma espécie de ervilha seca). No italiano, a dicção soa como tchitcheri, uma realização fonética que não existe no francês, o que permitiu a rápida identificação dos soldados franceses.

Hoje, o termo xibolete passou a indicar uma palavra ou identificador pelo qual um grupo de pessoas pode reconhecer uns aos outros e ser aceito ou rejeitado. O Xiboletismo é identificado como preconceito linguístico, um tipo de senha linguística que revela se alguém faz parte de um determinado grupo sociolinguístico ou não.

“A morte e a vida estão no poder da língua;
e aquele que a ama comerá do seu fruto.”

Provérbios 18:21

Texto adaptado, disponível em: http://www.triplov.com/letras/Antonio-Quino/2008/xiboletismo.htm

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