Mulheres da Bíblia: Rebeca

Este é um excerto do livro de Walter Wangerin “O Livro de Deus: A Bíblia Romanceada“. Conta a história de amor de Rebeca (Gênesis 24). Boa leitura!

LisLand Rebeca e Isaque

Por Walter Wangerin

Nas cercanias da cidade onde o irmão de Abraão, Naor, vivera e morrera, havia uma fonte de água doce. Abundante e confiável, o poço abastecia tanto a cidade quanto os viajantes que por ali passavam, caravanas transportando preciosos bens para leste e oeste.

Para tirar água desse poço, a mulher era obrigada a descer degraus de pedra irregular, ajoelhar-se e mergulhar a jarra na água corrente, erguendo depois o vaso cheio ao ombro para subir novamente os degraus. Logicamente, animais de carga não podiam descer até a grota e assim a água era levada para cima nas jarras e despejada em cochos de pedra talhados ao nível do chão.

Rebeca conhecia bem o poço e a rotina. Diariamente, ao crepúsculo ia com um grupo de amigas tirar água para suas famílias – mulheres jovens e cheias de vida, jarras aos ombros, soltando gargalhadas como bandos de passarinhos. Rebeca caminhava mais silenciosamente que outras. Era alta. Andava com um passo mais longo e gracioso. A testa alta indicava inteligência e um ar de convicção imediata. Mesmo cercada por multidões, essa mulher parecia isolada.

E então, certo fim de tarde, quando as mulheres subiam os degraus do poço com as jarras repletas de água, aconteceu de um velho adiantar-se e falar a Rebeca, como se ela fosse a única ali.

— Por favor – disse ele – será que posso beber um pouco dessa sua jarra?

Nitidamente tratava-se de um viajante, empoeirado da estrada, cansado e bem velho, velho o suficiente para ser avô da moça. Rebeca viu dez camelos ajoelhados aqui e ali, em torno do poço, as cabeças erguidas.

Suas amigas ficaram a observar por um momento, depois se afastaram. Escurecia, e Receba podia tomar conta de si.

— Sim – disse ela, baixando a jarra à mão. — Claro que sim; beba, por favor.

O forasteiro tomou um gole somente, sem tirar os olhos do rosto da moça.

— Vou pegar água para os camelos também, senhor – disse ela.

E foi fazê-lo. Descia e subia os degraus de pedra, despejando água nos cochos. Com o velho ainda a fitá-la, cutucou com jeito um dos animais, que então levantou-se e lentamente foi beber. Os outros o seguiram. E Rebeca continuou enchendo os cochos até que todos os dez camelos ficaram satisfeitos.

Já estava escuro quando terminou.

E quando o velho novamente se aproximou dela, tinha nas mãos objetos tão polidos e bolos que chegavam a brilhar. Um anel de ouro e dois braceletes também de ouro.

— De quem você é filha? – perguntou.

— Sou filha de Betuel, filho de Naor – respondeu-lhe Rebeca.

— Naor – murmurou o forasteiro – conheço Naor. – Pronunciou o nome com tanta emoção que parecia a ponto de rebentar em lágrimas. Alcançou a mão de Rebeca e delicadamente deslizou o anel em seu dedo.

— Será que a casa de Betuel tem espaço para hospedar a mim e minha comitiva por algum tempo? – tornou a perguntar.

— Temos palha e forragem, sim. E espaço, sem dúvida.

Então o velho caiu de joelhos e ergueu os braços, cantando com voz suave:

— Bendito seja o Senhor, o Deus de meu mestre Abraão! Ele me guiou à casa de seus parentes.

Sem erguer-se ainda, cingiu os braceletes em torno dos braços de Rebeca, e disse:

— Vá, por favor. Rogo-lhe que arrume acomodação para passarmos a noite.

O pai de Rebeca estava então idoso e enfermo. Era seu irmão Labão que tomava a maioria das decisões da família. […] Após o irmão ter saído, Rebeca e sua mãe prepararam mais comida.

Algum tempo depois, ouviram a voz de Labão lá fora. Ele mesmo tirava as rédeas dos camelos. Ordenava aos servos que trouxessem água para lavar os pés do forasteiro. E disse:

— Entre, ó bendito do Senhor. Entre e coma.

Mas já dentro de casa, a comida posta à sua frente, o velho recusou-se a comer.

— Não antes de haver proferido minha mensagem – falou.

— Fale então, amigo! – disse Labão.

— Sou servo de Abraão – disse-lhe. — O Senhor abençoou fartamente meu amo com ovelhas e bois, com ouro e prata, servos, criadas, camelos e burros.

— Mas Abraão – continuou – tem só um filho, Isaque. E me fez jurar, na terra de Canaã, voltar a esta terra e à casa de seus parentes, aqui, a fim de encontrar uma esposa para Isaque. Hoje mesmo chegue ao poço próximo à sua cidade e orei a Deus para que trouxesse êxito à minha missão. Eu disse então: “Ó Senhor, quando eu pedir a uma moça que me dê de beber, se ela disser: ‘Beba, que vou tirar água para seus camelos também’, seja ela então a mulher que o Senhor escolheu para o filho de meu amo”. E eis que, antes ainda que eu tivesse acabado de orar, apareceu sua irmã. Veio Rebeca. Veio aquela bela mulher e fez tudo o que eu havia pedido ao Senhor. […]

— Rebeca, filha de Betuel – disse ele. Ela deu alguns passos em direção à luz. — Receba estas coisas. – E então lhe entregou jóias de aro e prata, além de vestidos finamente tecidos. Deu também presentes caros ao irmão e à mãe da moça.

Afinal, comeu a ceia.

Na manhã seguinte, disse aos anfitriões:

— Peço que me permitam voltar agora a meu senhor. Ele é velho e não poderá viver muito mais.

— Ah, senhor, não! – disse-lhe Labão. – Deixe que a moça tenha tempo para se despedir. Seja nosso hóspede enquanto isso. Pelo menos dez dias.

— Por favor – disse o servo – A jornada é longa. Logo vem a estação das chuvas. Por favor.

— Que Rebeca decida, então – respondeu Labão.

— Eu vou – pronunciou-se Rebeca, imediatamente.

E assim Rebeca, essa mulher de convicção ligeira e total autoconfiança, em uma noite e um dia transformou sua vida desse ponto em diante e para sempre.

No mês que se seguiu, Rebeca e o velho servo viajaram de sua casa em Padã-Arã pela mesma estrada que o próprio Abraão havia tomado há mais de 65 anos – um longo caminho rumo ao sul. Cruzaram o rio Jordão em Sucote e avançaram ainda mais para o sul, além do Mar Morto, chegando ao Negueve.

Ao final da tarde do trigésimo dia, quando os camelos moviam-se com exausto langor, Rebeca ergueu os olhos e viu um homem caminhando sozinho pelos campos, a cabeça baixa, meditativo.

— Quem é aquele? – perguntou.

Apeou do camelo e dirigiu-se ao velho servo de Abraão:

— Vê aquele homem ao longe? – perguntou. — Quem é ele?

— Ah, é o filho de meu senhor. Aquele é Isaque.

Então Rebeca cobriu o rosto com um véu e aguardou ser vista pelo homem que se tornaria seu marido.

No Negueve, então, Isaque levou Rebeca à sua tenda, onde a tomou por esposa, e ele a amou de todo o coração. Jamais amou outra enquanto viveu.

— Assim que vi essa mulher em pé, alta, ao lado de um campo branco, apaixonei-me por ela – disse ele.

Tinha 40 anos na época.

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