Mulheres da Bíblia: Raabe

Raabe

Por Tessa Afshar

Observação da Autora: Ler um romance não é a melhor maneira de estudar as Escrituras, para isso temos a Bíblia. De forma alguma, esta história tem a intenção de substituir o poder transformador que o leitor encontrará nas Escrituras. Para uma melhor descrição bíblica de Raabe, leia Josué 1-10, Mateus 1:1-7 e o livro de Rute.

[…]

— Bela construção – disse Hanani. – Mas qual será a espessura daquelas pedras?

Ezra nem chegou a responder. Eles já tinham discutido o plano. Eles caminhariam em meio à multidão, manteriam os ouvidos bem atentos e andariam até o cair da noite sem falar com ninguém. Hanani sabia que a verdadeira missão deles era ouvir. Qual seria a reação dos habitantes de Jericó em relação às vitórias de Israel, a leste de suas terras? Eles estavam cientes dos acontecimentos dos últimos meses? Eles estavam se preparando para a batalha?

O plano dos dois deu errado desde o princípio. Os guardas nos portões estavam revistando todos, e cada inspeção parecia mais longa e mais minuciosa, o que representava um problema para entrar sem serem notados. Ao se aproximarem, um dos soldados bloqueou a passagem de Hanani enquanto o outro apontou o dedo contra o peito de Ezra.

— O que vocês fazem aqui? – perguntou ele.

— Somos mercadores. – respondeu Ezra.

— De onde vocês vieram?

— Na maior parte do tempo, de Midiã. Mas também viajamos pelos arredores.

O guarda franziu as sobrancelhas.

— Vocês falam estranho.

Hanani olhou em volta desesperado. Não tinha como lutar nem escapar, pois os guardas tomavam quase toda a entrada dos portões. A ousadia era a única esperança deles.

— Estamos falando engraçado por causa da poeira das estradas, amigo. Minha sede está me matando. E ele – Hanani apontou para Ezra – está com tanta fome que comeria um camelo inteiro. Deixe-nos passar, amigo. Trouxemos dinheiro para gastar em Jericó.

— Sim, deixe-os entrar, amigo. – Pediu uma inesperada voz feminina. Uma mulher com vestes de seda azul-clara recostou-se no muro em frente a eles. Seus cabelos castanhos caíam pela cintura como pequenas argolas reluzentes, levemente cobertos pelo véu que flutuava no vento. Seus olhos grandes de cor de mel eram emoldurados por cílios curvados, e o nariz pequeno apontava como uma seta para os lábios carnudos, muito avermelhados pela bondade da natureza. A seda azul de seu vestido aderia-se com sedução à sua figura curvilínea, deixando pouco à imaginação.

Hanani engoliu em seco. Dona de estalagem, dissera ela. Tudo relacionado a ela lhe era proibido. Ele ficou nervoso e desviou o olhar.

Felizmente, o guarda parecia tão distraído quanto Hanani. Perdendo o interesse no interrogatório, ele encarou a mulher.

— Raabe! Os negócios não devem estar tão ruins a ponto de você receber homens usando essas roupas em sua estalagem.

— Claro que os negócios vão mal, graças a você e aos seus soldados que assustam meus clientes. Agora deixe esses belos mercadores entrarem em minha estalagem para que eles possam gastar muitas moedas de prata com os bons vinhos de Jericó.

[…]

Salvos por uma dona de estalagem – uma zonah*! No final das contas, talvez a morte sob tortura não fosse um destino tão cruel assim. Hanani não conseguia se imaginar explicando essa sequência de acontecimentos a Josué.

[…]

Raabe subiu com eles e ficou lá em cima por alguns minutos para vê-los se ajeitar. O cheiro de linho seco tomou conta de suas narinas, um cheiro prazeroso de planta.

— Vocês têm que ir bem cedo, antes do amanhecer – ela explicou em voz baixa para que ninguém mais a ouvisse. – Os guardas caminham pelo perímetro do muro assim que o sol nasce, e eles podem descobrir que vocês ainda não foram embora.

Hanani mostrou que ouviu.

— Nós ouvimos você falar com os guardas do rei. Por que você, uma… uma mulher de Jericó, protegeu homens de Israel?

Ela estava ajoelhada no parapeito enquanto eles permaneciam escondidos debaixo dos talos de linho. Se qualquer pessoa olhasse para cima, veria apenas Raabe. O dia escurecera e Raabe sentiu o anoitecer envolvê-la como um cobertor macio. As estrelas reluziam em meio à escuridão do céu como pontos de esperança, e ela pensou na pergunta de Hanani. Por que ela ajudou o inimigo? Por que ela fez de seu nome um objeto de maldição de todos os cananeus pelo resto das gerações futuras? Porque, apesar de tudo, era a coisa certa a fazer.

— Estou ajudando vocês porque sei que o Senhor lhes deu esta terra. O medo sufoca o meu povo, e ouvimos que o Senhor abriu as águas do mar para que vocês saíssem do Egito. Nós soubemos do que vocês fizeram com dois reis dos amorreus, Siom e Ogue. Quando ouvimos falar dessas conquistas, perdemos a coragem. Mas eu sei que o Senhor, seu Deus, é Deus nos céus e acima de toda a terra. Sei que é Ele quem luta as suas batalhas e quem as conquista para vocês. Foi por isso que eu os salvei.

Ela só não falou sobre querer muito pertencer a Ele por medo de parecer ridícula. Raabe estava convencida de que eles a ultrajariam, e de que o próprio Senhor a rejeitaria. Então, em vez disso, ela se sentou para fazer um acordo com Ele por intermédio de Seus homens.

— Hanani e Ezra, mostrei bondade para com vocês. Salvei suas vidas. Portanto, agora, como vocês retribuirão minha bondade? Vocês juram que pouparão a mim e a minha família quando invadirem Jericó?

Hanani mexeu em um dos talos de linho até que somente seu rosto ficasse visível. Em meio à escuridão, Raabe conseguiu ver o branco de seus olhos.

— Você não tem dúvida de que Deus concederá vitória a Israel, não é?

Raabe fez que não com a cabeça.

— Você tem muita fé. Nunca pensei que encontraria alguém assim fora de Israel.

As palavras dele levaram lágrimas aos seus olhos, mas ela se virou para que ele não visse o brilho delas contra a luz das estrelas. Aquelas palavras expressavam aprovação de um homem que, há pouco tempo, a considerava digna apenas de desprezo. E ela havia conquistado aquela aprovação não por meio da manipulação feminina, mas por sua fé. No entanto, seria aquela aprovação tão boa para uma mulher morta?

— Então, vocês vão salvar nossas vidas? Vocês pouparão meus pais, meus irmãos, minhas irmãs e os filhos deles?

Hanani estendeu a mão e tocou a orla de suas vestes.

— Nossas vidas em troca das suas – prometeu ele com uma firmeza nas palavras que a convenceu. […] Eu andei pensando… Não se pode dar ordens a um exército no meio da batalha. É preciso marcar sua localização de alguma forma para que as forças amigas a conheçam e a poupem. – Ele olhou em volta por um momento até seus olhos se fixarem em uma corda grossa de cor escarlate que compunha uma tapeçaria. – Você deve amarrar esta corda do lado de fora da janela. Além disso, traga toda sua família para sua casa. Não podemos garantir a vida de ninguém fora dessa estalagem. O sangue de cada um recairá sobre sua própria cabeça, mas nós nos responsabilizaremos pela segurança de todos que permanecerem aqui dentro. No entanto, Raabe, se você nos trair, nosso juramento não mais existirá.

— Eu prometo, não serei desleal nem a vocês nem ao seu Deus.

[…]

Ela permaneceu com a corda escarlate nas mãos para certificar-se de que ela não sumiria. Ela ficou pendurada do lado de fora de sua parte do muro como um fio de esperança. Naquela corda escarlate estavam seu futuro, sua vida e a vida de seus familiares. Seu futuro dependia de uma corda. Não, ela lembrou a si mesma. “Meu futuro depende de Deus.”

Depois de sete voltas intermináveis ao redor da cidade, o som das trombetas ficou ainda mais alto, quase insuportável. Em seguida, como se fossem um só, o povo deu um grito que fez Raabe se arrepiar. A força daquelas vozes fez o chão tremer, e ela colocou as mãos sobre os ouvidos tentando abafar o barulho.

Todavia, mesmo com suas mãos pressionando a cabeça, ela ouviu que o barulho aumentava e sentiu o chão literalmente tremer. Raabe foi olhar pela janela e viu que, à sua direita e à sua esquerda, os muros impenetráveis de Jericó estavam, de fato, ruindo! Eles estavam esmorecendo e caindo em volta de todos. Sem nem mesmo uma flecha lançada, sem fogo e sem aríetes, com nada mais, nada menos do que um grito, o Senhor arruinara a fortaleza de Jericó. A cidade fora derrotada.

Os olhos de Raabe se encheram de lágrimas, e ela ficou paralisada por causa do choque daquela cena. À medida que a poeira densa das pedras e do cimento começou a baixar, Raabe conseguiu ver a dimensão do perigo. Com exceção da sua parte do muro, que por um milagre permanecera intacta, até onde seus olhos podiam ver, toda a estrutura defensiva da cidade estava em ruínas. […] Depois, ela se deu conta de que precisava alertar aos seus parentes, que estavam em um outro cômodo longe da janela, com medo do que havia destruído sua cidade natal.

— Arrumem suas coisas – ordenou Raabe com uma voz trêmula saindo de seu transe. – Preparem-se. Os muros ruíram e logo eles virão até nós.

[…] Raabe ouviu passos de alguém subindo suas escadas, e por um momento seu corpo paralisou. […] A porta se abriu, e lá estava o próprio Hanani, seguido por Ezra. Eles estavam sujos e com um sorriso de orelha a orelha. Vê-los deu uma força súbita a Raabe, e ela correu em direção aos dois rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Vocês vieram. Vocês vieram por nós. […] Obrigada! – murmurou sem conseguir pensar em mais nada. Com um impulso, ela pegou a corda escarlate para se lembrar da bondade do Senhor para com ela, e a corda seria uma lembrança de que Ele escolhera salvar sua vida.

[…]

*Zonah: Tipo comum de prostituta

Excertos retirados do livro “Pérola na Areia”, de Tessa Afshar.

Raabe-Livro

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