Débora: profetisa, esposa e guerreira

Essa história, inspirada na Bíblia, é um excerto do livro História dos Hebreus, de Flávio Josefo. Nos revela um pouco da vida de Débora, uma israelita que se destacou na área espiritual, conjugal, ministerial e mostrou toda sua coragem e força indo à guerra.

Os males que caíram sobre os israelitas não os tornaram melhores, e eles voltaram à impiedade para com Deus e ao desprezo de suas leis. Assim, depois de libertos do jugo dos moabitas, foram vencidos e dominados por Jabim, rei dos cananeus. Ele tinha a sua corte na cidade de Hazor, situada sobre o lago de Samachom, e mantinha ordinariamente trezentos mil homens de infantaria, dez mil cavaleiros e três mil carros. Sísera, general do exército, desfrutava grande favor junto dele porque vencera os israelitas em vários combates, e o rei devia principalmente à liderança e ao valor desse homem o fato de tê-los como tributários.

Vinte anos passaram os israelitas em tão dura servidão que não houve mal que não tivessem sofrido. Deus o permitiu para castigar o orgulho e a ingratidão deles. Mas ao fim desse tempo eles reconheceram que o desprezo às santas leis era a causa de toda aquela infelicidade. Dirigiram-se a uma profetisa de nome Débora, que em hebreu significa “abelha”, e pediram-lhe que dissesse a Deus para ter compaixão deles e de seus sofrimentos.

Ela rogou-lhe em seu favor, e a sua oração foi ouvida. Deus prometeu libertá-los sob o comando de Baraque — “relâmpago”, em nossa língua —, que era da tribo de Naftali. Débora, depois desse oráculo, ordenou a Baraque que reunisse dez mil homens e atacasse os inimigos, sendo suficiente esse pequeno número, pois Deus prometia-lhes a vitória. Baraque respondeu-lhe que não podia aceitar o cargo se ela não tomasse, com ele, o comando do exército. Ela, porém, respondeu-lhe encolerizada:

— Não tendes vergonha de ceder a uma mulher a honra que Deus se digna fazer-vos? Eu, porém, não recuso recebê-la.

Reuniram assim dez mil homens e foram acampar no monte Tabor. Sísera, por ordem do rei seu senhor, marchou para combatê-los e acampou próximo deles. Baraque e o resto dos israelitas, espantados com a multidão dos inimigos, intentaram retirar-se e afastar-se quanto possível. Mas Débora os deteve e ordenou-lhes que combatessem naquele mesmo dia sem temer aquele grande exército, porque a vitória dependia de Deus, e deviam confiar no seu auxílio.

Travou-se o combate. Nesse momento, viu-se cair uma forte chuva com granizo. O vento impelia-a com tanta violência contra o rosto dos cananeus que os arqueiros e fundibulários não se podiam servir nem dos arcos nem das fundas, e os que estavam armados mais pesadamente tampouco podiam usar as suas espadas, tão enregelados estavam pelo frio. Os israelitas, ao contrário, tendo a tempestade pelas costas, não eram incomodados por ela e ainda sentiam redobrada a coragem, vendo nela um sinal visível do auxílio divino. Assim, eles venceram e mataram um grande número de inimigos, restando apenas um pequeno número, que pereceu sob as patas dos cavalos e as rodas dos carros de seu próprio exército, o qual fugia em desordem.

Sísera, vendo tudo perdido, desceu do carro e entrou na casa de uma mulher ciniana, de nome Jael, rogando-lhe que o escondesse e pedindo-lhe de beber. Ela deu-lhe leite, de que ele bebeu bastante, porque sentia muita sede. Ele adormeceu, e a mulher, vendo-o em tal estado, fincou-lhe com um martelo um grande prego na fronte. Os soldados de Baraque chegaram, e ela apontou-lhes o morto. Assim, segundo a predição de Débora, a honra dessa grande vitória coube a uma mulher. Baraque marchou em seguida para a cidade de Hazor e derrotou e matou o rei Jabim, que vinha com um exército ao seu encontro. Ele arrasou a cidade e governou o povo de Deus durante quarenta anos.

♯ ♫ ♭ ♪ A canção de Débora e Baraque ♯ ♫ ♭ ♪

♪ Louvem a Deus, o Senhor!
Os israelitas resolveram lutar,
e o povo se apresentou alegremente!
Ouçam, reis!
Prestem atenção, governadores!
Eu tocarei música e cantarei
ao Senhor, o Deus de Israel!

♪ Ó Senhor Deus, quando saíste das montanhas de Seir,
quando vieste da região de Edom,
a terra tremeu, e as chuvas caíram do céu.
Sim, caiu muita água das nuvens.
As montanhas tremeram diante do Senhor, o Deus do monte Sinai,
diante do Senhor, o Deus de Israel.

♪ Nos dias de Sangar, filho de Anate,
nos dias de Jael,
as estradas estavam desertas,
e os viajantes usavam os desvios.
Nas cidades de Israel não havia ninguém;
elas ficaram vazias até que você, Débora, veio,
para ser mãe de Israel.
Os israelitas escolheram novos deuses,
e então houve guerra no país.
E dos quarenta mil homens de Israel
nenhum carregava escudo ou lança!
O meu coração está com os comandantes de Israel,
com o povo que se ofereceu alegremente.
Louvem a Deus, o Senhor!
Falem disso, vocês que montam jumentos brancos,
sentados nas suas selas,
e os que viajam a pé.
Escutem! A multidão barulhenta em volta dos poços
está falando das vitórias do Senhor,
das vitórias do povo de Israel!
Então o povo do Senhor desceu para as suas cidades.

♪ Levante-se, Débora, levante-se!
Levante-se! Cante uma canção! Levante-se!
Marche, Baraque, filho de Abinoão,
e leve presos os que o prenderam!

♪ Então os que tinham fé foram para onde estavam os seus chefes,
e o povo de Deus, o Senhor, pronto para lutar,
foi encontrar-se com Baraque.
Eles saíram de Efraim e foram para o vale,
atrás da tribo de Benjamim e do seu povo.
De Maquir desceram os comandantes,
e de Zebulom vieram os oficiais.
Os chefes de Issacar foram com Débora.
Sim, a tribo de Issacar foi, e Baraque também.
Eles o seguiram até o vale.
Mas a tribo de Rúben estava dividida;
eles discutiram e não foram.
Por que resolveram ficar lá com as ovelhas?
Será que foi para ouvir os pastores chamarem o rebanho?
Sim, a tribo de Rúben estava dividida;
eles discutiram e não foram.
A tribo de Gade ficou a leste do rio Jordão,
e a tribo de Dã, nas pastagens.
A tribo de Aser parou perto do mar
e ficou na beira das praias.
Mas o povo de Zebulom e de Naftali
arriscou a sua vida no campo de batalha.

♪ Os reis vieram e lutaram
em Taanaque, perto do riacho de Megido.
Os reis de Canaã lutaram,
mas não tomaram dos inimigos nenhuma prata.
Até as estrelas lutaram:
enquanto caminhavam pelo céu,
elas lutaram contra Sísera.
Os inimigos foram arrastados por uma enchente do rio Quisom,
o velho rio Quisom.
Eu marcharei, marcharei com firmeza!
Então os cavalos galoparam e galoparam,
socando a terra com os seus cascos.

♪ “Amaldiçoem a cidade de Meroz”,
diz o Anjo do Senhor;
“amaldiçoem, amaldiçoem os seus moradores,
pois eles não vieram ajudar o Senhor,
não vieram como soldados para lutar por ele.”

♪ A mais feliz das mulheres é Jael,
a mulher de Héber, o queneu.
Ela é a mais feliz das mulheres que vivem em barracas.
Sísera pediu água, porém ela lhe deu leite;
trouxe nata para ele numa linda taça.
Pegou a estaca com uma das mãos
e a marreta com a outra.
Deu um golpe em Sísera e esmagou a sua cabeça;
furou e quebrou a sua cabeça em pedaços.
Ele caiu de joelhos,
tombou e ficou estendido a seus pés.
A seus pés ele caiu de joelhos e tombou;
ele caiu morto no chão.

♪ A mãe de Sísera olhou pela janela da sua casa;
olhou bem, pela grade da janela, e disse:
“Por que o seu carro demora tanto para chegar?
Por que os seus cavalos andam tão devagar?”
As suas acompanhantes mais sábias respondiam,
e ela repetia para si mesma:
“Eles devem estar dividindo as coisas que tomaram:
uma ou duas moças para cada soldado,
roupas luxuosas para Sísera
e panos bordados para o pescoço da rainha.”

♪ Assim, ó Senhor Deus, morram todos os teus inimigos,
porém que os teus amigos brilhem
como a forte luz do sol nascente!

Mulheres da Bíblia: Hogla, a filha de Zelofeade (N° 3)

Este conto foi inspirado na bela história escrita em Números 27 e 36. Esse post é a terceira sequência de histórias sobre as filhas de Zelofeade, dessa vez Hogla protagoniza a cena. O primeiro conto foi sobre Macla, o segundo sobre Noa. Boa leitura!

Hogla Filha de Zelofeade

— Hogla, é de livre e espontânea vontade que você aceita Amom como seu legítimo esposo?
Ela sorriu com os lábios, olhou diretamente para os olhos castanhos daquele que havia escolhido para ser seu esposo e respondeu:
— Sim.

A luz suave do sol iluminava todo o ambiente, que estava bem arejado. As flores do campo estavam estrategicamente dispostas não somente para adornar, mas para levar a fragrância por todo o recinto. Os assentos permitiam que os convidados tivessem uma visão clara dos noivos.
Amom virou-se para sua noiva com um largo sorriso que exprimia toda a felicidade do mundo, estendeu as mãos para Hogla e os dois permaneceram de mãos dadas. Hogla anotara mentalmente cada detalhe de seu noivo, prestara atenção em cada promessa feita por ele com o coração jubiloso, ela o conhecia bem, sabia que não eram palavras vazias, a palavra de Amom era zelada como sua própria honra. Ela admitia não ter o coração mole, mas cada gesto e palavras dele a tocavam profundamente. Hogla se sentia amparada por Deus, estava rodeada por sua família e tinha o amor do homem que mais admirava.

O celebrante era ninguém menos que Heleque, pai de Amom, tio de Hogla e cabeça de seu clã, um príncipe em Israel.
— Aqui estão Hogla e Amom. É sabido de todo o Israel a ordem específica do SENHOR para as filhas de nosso saudoso sobrinho Zelofeade, que elas se tornariam herdeiras de suas próprias terras, na tribo de Manassés, e também que escolheriam para si varões de seu próprio agrado, contanto que estes pertencessem ao mesmo clã da tribo de seu pai.

Os convivas se olhavam com ternura e emoção, admirados da proximidade e interesse demonstrados por Deus a eles. Entre eles estavam as irmãs da noiva: Macla acompanhada de Esrom, seu esposo, e filhos; Noa estava ladeada por seu esposo Israim, a protuberante barriga dela anunciava o primeiro filho deles; juntas Milca e Tirza, emocionadas com a cerimônia, seguravam lencinhos para limpar as insistentes lágrimas.

Heleque continuou o discurso:
— E coube aos valorosos manassitas conquistarem os corações das belas filhas de Zelofeade. Hogla, você escolheu muito bem, pois não está se casando com um homem fora de sua tribo, está honrando a Deus com essa escolha e o SENHOR está te abençoando com um homem que a ama e que prometeu cuidar de você. De agora em diante você tem o dever de usar sua sabedoria em obediência a Amom. ‒ Olhando para Amom, Heleque disse: Amom, meu filho, você é privilegiado pelo Eterno por cumprir o mandado do SENHOR, que o amor enraizado em seu coração por Hogla se fortaleça cada dia mais e daí produza muitos frutos.

A mãe e os irmãos de Amom afirmavam com a cabeça em sinal de aprovação. Heleque olhando para a plateia convoca todos a se levantarem:
— Estendemos pois, agora, nossas mãos aos Céus, suplicantes ao abençoador que estabeleça essa nova família fazendo-a crescer e se multiplicar sobre a terra que o SENHOR tem nos prometido.
Todos os presentes se colocaram de pé, estenderam as mãos aos céus e cada um deles fez uma prece de bençãos aos noivos. Heleque finalizou a oração com a benção de Israel e olhando para os noivos disse:
— Conforme as vossas declarações, com a benção de Deus e diante das testemunhas aqui presentes, eu vos declaro marido e mulher. Agora vocês serão uma só carne. Amom pode beijar sua esposa.

Amom afastou o delicado véu de sua esposa, tomou o rosto dela em suas mãos e beijou respeitosamente a testa de Hogla.

Leia os contos seguintes:
Mulheres da Bíblia: Milca, a filha de Zelofeade (N° 4)

Mulheres da Bíblia: Tirza, a filha de Zelofeade (N° 5)

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As Filhas de Zelofeade – PDF

O amor secreto

Este conto tem inspiração na história contida em Gênesis 19:26.
mulher de Ló

Lembrai-vos da mulher de Ló.
Lucas 17:32

Acordei de um sono de pedra pouco antes do ônibus chegar em frente ao templo. A minha vontade era voltar a dormir, mas os irmãos já estavam formando a fila para entrarem no ônibus após conferido o nome na lista. Dentro do templo fiquei envolvida em atividades com um ouvido no grupo em que meu esposo estava. Ele tem esse dom de falar de forma descontraída mesmo sobre assuntos sérios, a pauta era o sono da indolência. Achei graça, mas não consigo me lembrar do versículo que ele citou.

Somente quando o irmão responsável pela lista do ônibus me sinalizou a hora de entrar, me dei conta que havia esquecido de terminar as minhas coisas. Corri para o banheiro, mal havia terminado de listar mentalmente mais outras duas pendências, o porteiro anuncia a partida do ônibus. A cena foi ridícula, todos estavam a bordo e eu do lado de fora gritando, acenando desesperada, tentando parar o ônibus que arrastava lentamente.

Suspirei aliviada quando vi o pastor e sua comitiva saindo do templo, ele tinha carro e poderia nos levar junto. Eles foram a pé e o pastor chamava a nossa atenção fazendo algumas recomendações sérias, mas eu confesso que não consegui ouvi-lo de tão atemorizada que estava com a partida do ônibus. Não conseguia parar de associar a partida daquele ônibus com a volta de Jesus Cristo, com dia e hora marcados.
Mas, a voz do meu próprio coração estava abafando todas as vozes importantes.

Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.
Apocalipse 3:3

Andarilho para o Eterno

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Andarilho

“E ali haverá um alto caminho, um caminho que se chamará O Caminho Santo;
o imundo não passará por ele, mas será para o povo de Deus;
os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.” Isaías 35:8

Apresentação

O Andarilho, sabedor da transitoriedade da vida, saiu pelo mundo com sua bagagem às costas. Aos poucos, percebia das regras das estações, dos dias, das noites, dos homens e dos bichos. Aprendia que mesmo andando solitário, sem rumo, estava envolvido com algo grande. Podia não ter valor para os olhos dos passantes, podia não dar a solução de melhora para o mundo, entretanto, via a olhos cansados a igualdade e a mesma condição em que ele e todos os outros se encontravam, não importasse como viviam.

E caminhava. Queria descobrir o caminho certo, pois até para isso havia de ter alguma regra; igual quando pequeno aprendera a andar, um pé após o outro. Caminhos diferentes. Uma hora: dia. Outra hora: noite. Sono e fome. Sede e sonho. Chuva, olhos e cores. Movimento sem descanso. Regras. Impostas por quem? O Andarilho se perguntava. E caminhando conseguia desmatar o embaraço que lhe ia à alma.

O Andarilho caminhava para frente, mas parecia que andava em círculos. Via sempre as mesmas coisas. Havia muita tristeza nas pessoas correndo para todos os lados, procurando felicidade, um sentido para viver. A morte não poderia ser o fim. A vida destoava do breve, era um ciclo que apontava sempre para a continuidade.

Seria o além? Além dos mares e oceanos, dos caminhos e do horizonte. O além do céu e universo. Onde estava o detentor de todo o conhecimento das coisas? Sabia, lá no fundo ele sabia. Restava uma vaga lembrança. Quem mesmo? Onde?

Na vida, tanta gente passou e se foi. Ele andava e deixava para trás. Queria achar que era solitário. Mas, tudo se tornava paradoxal. O que não era, passava a ser. E mudava. Paisagens, campos, prados, cerrados, montes, florestas… A natureza sem fim. Eram como ele. Sim, era ele. O chão. O pó.

Andava, não fugia. Percorria a si mesmo. Procurava se entender, se conhecer. E uma pergunta insistente sibilava: quem seria ELE? Ainda havia muito que andar. Um dia iria achá-lo.

O sol a pino enrugava ainda mais o rosto magro. O som da natureza era música aos ouvidos. Estava suave agora. Um vento morno, o sono principiava. As pálpebras pesavam. O andarilho sentou, ajeitou sua bagagem para servir de travesseiro. Iria dormir até não sentir mais sono algum. Seus pensamentos começavam a se confundir. Suas próprias ideias e lembranças levitavam sobre sua cabeça. Voavam alto. Formavam histórias novas. Seria sonho ou pensamento? Abriu os olhos. Começara a sonhar.

Tomava mais uma estrada, num mundo do inconsciente. Foi à infância. Seus pais, jardim com cerca, quintal, vidros na janela, brinquedos, fogão à lenha, aquele perfume, porta-retratos, caminho para escola, maçã para professora, colegas, livros, leitura, e o espelho da diretoria. A diretora dispunha de um espelho defronte à carteira dos desobedientes. Depois das primeiras duas horas as brincadeiras cessavam e os questionamentos começavam. E lá estava o Andarilho. E o vazio de respostas continuava. Engolia suas perguntas junto com a saliva para o recôndito mais escuro dele mesmo.

O Andarilho acordou agitado, aquelas lembranças doíam. Nunca saíra daquele nível. Sua vida diante de si: desde sempre a mesma bagagem inútil de questionamentos sem respostas. As pessoas tentavam ignorar, ele agora carregava à vista de todos. E os outros corriam atrás do vento, traçavam metas sem sentido, davam significado ao nada. Não encontravam o sentido da vida, muito menos conseguiam desfrutar dela.

De olhos abertos, o céu azul sobre ele. De olhos fechados, o manto negro. Escuridão palpável, ele prosseguia no vagar, as costas vergavam segurando o peso do mundo. A vida tinha gosto e no presente momento estava azeda.

O Aventureiro

Raridade achar parceiro de caminhada, mas tinha certeza que aquilo eram pegadas de um humano. Algum fugitivo do itinerário, ou perdido? Mais adiante se deparou com um homem de mesma altura e peso, trajando roupas limpas e postura acostumada às trilhas.

— Está perdido, senhor? – Perguntaram ao mesmo tempo.

— Não, senhor.

O aventureiro estava sentado num tronco de árvore, comendo os alimentos que desembrulhara cuidadosamente.

— É servido?

Aceitou de boa vontade e comeu alguns gramas. Aquele Aventureiro falava demais, seus ouvidos estavam zunindo. Contou-lhe toda a vida. Estava pasmo de que houvesse pessoas que conversassem tão livremente de assuntos tão pessoais e tudo de uma só vez. O Andarilho não inspirava confiança, muito menos teria bons conselhos. Assentia sempre, às vezes o pensamento longe. Quisesse ou não, sempre guardava alguma informação. Mas, pelo menos cuidava do próprio caminho.

“Que faço de minha vidinha egoísta, então? Estou desgastando-a em caminhadas infindas. Desde quando homem cria raízes igual planta? O que fazia aquelas plantas brotarem da união de pozinhos? Terra. Quem o pusera ali? Onde estaria o Criador? Escondido atrás da cortina celeste? Não, eu quem andei me escondendo em meio a tantos matagais da vida. A severidade do castigo nos separou. Sinto que sou devedor.”

Todo homem caminha só. Aparenta-se com ideias. E dá conta de cada andança. Ele foi embora deixando o Aventureiro ainda falando.

A Viajante

Avistou um pedaço de madeira. Era pesado, mas serviria para entreabrir o matagal. E o fazia selvagemente. Logo se cansou. Para quê tanta impulsividade? Não tinha pressa. Quem o visse de longe, o compararia a uma semente, um embrião tentando nascer via horizonte. Na mesma medida que seus pensamentos faziam barulho em sua cabeça, o matagal se agigantava. Parado, jogou o pedaço de madeira para um lado. Caiu por cima da bagagem.

Repentinamente, um metal cortou à sua frente. A luz forte do sol brilhou cegando seus olhos. Que era aquilo?

Diante dele surgiu uma mulher. Parecia alta, mas quando se levantou percebeu que era mais baixa que ele. Ela era de meia idade e forte, se apresentava como uma viajante e carregava uma espécie de foice leve. A bagagem se encaixava às costas como se fizesse parte do corpo. Caminharam. Ela caminhava com facilidade por cima de pedras, raízes e terrenos escorregadios. O Andarilho ficou curioso a seu respeito. Por que estava sozinha?

Já estavam caminhando juntos a um bom tempo. A foice abria uma trilha limpa. Quando estava a ponto de perguntar a seu respeito, ela dispara:

— Gosta de flores, Andarilho?

— Não, senhora.

— Elas são perfumadas e encantam o caminho.

— São mais uma lembrança amarga de que a vida é tão fugaz quanto elas. Desabrocham belas e logo murcham feiamente.

— Para mim elas servem como setas indicando o Caminho. Observe que ao olharmos para baixo elas nos apontam o céu!

O Andarilho não seguia flores, nem sabia andar para o céu.

Um sorriso despontou de seus lábios ressecados. Nas profundezas de seu âmago tinha esperança da existência de um caminho que o levaria ao descanso. Entretanto, agora, por mais que caminhasse reto, a estrada curvava na linha do infinito.

A viajante continuava ladeando.

— A senhora anda a passo de homem.

— Estava acostumada a andar com meu esposo. Ele faleceu e agora estou na incumbência da foice. Ela serve para colher. Nem sempre estive com ela. Depois que ele faleceu, eu não conseguia mais viajar. Eu me assentei numa pedra olhando o horizonte.

O Andarilho a ouvia calado.

— Estava sentada numa grande pedra olhando o horizonte. O sol encoberto por nuvens pousava nos montes distantes. As sombras declinavam lentamente. Um vento frio fazia a vegetação tomar a mesma direção. A noite foi caindo… Quando dei por mim, minha vida declinava junto às sombras.

Espasmos existenciais. Toda a paisagem estava desenhada na mente do Andarilho. Ele já estivera lá. Ela continuava:

— Com a mente iluminada, qualquer noite é clara o suficiente para se enxergar o Caminho. Toda essa imensidão tentando mostrar o Criador! Eu não poderia permanecer na letargia. Levantei por Ele e para Ele: o Caminho. Meus pés são formosos porque anuncio boas novas. Caminho n’Ele.

— A senhora caminha em quem?

— Caminho. Nunca ouviu falar? Nunca caminhou n’Ele?

— Eu só ando… Ando a passos largos, na rapidez de meu caminhar vou atropelando pessoas. Eu tropeço. Fico ferido. Resolvi que para chegar n’algum lugar, ou correndo ou andando, devo prosseguir. Sei que andando aprendo a ser um Andarilho melhor.

— Essas suas veredas não te levam a destino algum. Você precisa conhecer o Alvo.

— Senhora, minhas veredas têm destino certo: a morte. Não é ela quem nos visita em meio às nossas andanças?

A Viajante percebeu um vislumbre de perplexidade no Andarilho:

— Andarilho, você sabia que existe a Vida Eterna? Você só poderá obtê-la se encontrar e caminhar no Caminho. Caso contrário cairá no abismo da morte eterna. Perdido em suas veredas, há esse peso às costas, sem razão de existir, não há descanso, muito menos recompensa às obras. Quem anda no Caminho anda no estreito, mas com fardo leve, e há descanso para a alma.

Ele ficou pensativo. Decerto, essa mudança lhe faria bem. Desejar o novo… E o homem é adaptável. Havia trilhado caminhos à procura de clareza e melhoria. Mas, só conseguia transgredir, não às Leis, mas ao desejo, que geralmente não fluía conforme o imaginado. E tinha de andar mais um pouco, de novo e sempre. Voltava ao ponto da irreconciliabilidade. Fazia da mudança, rotina. Tudo para conseguir chegar… Mas, se tornara um fugitivo com o coração esmigalhado pela estrada. Terminara um farrapo de gente.

A Decisão

O momento crucial da decisão chegara. E o Andarilho estava diante de uma bifurcação na estrada. Ele não se incomodava de andar com a Viajante, afinal, ela o ajudara a chegar ali. Eles poderiam se separar agora ou não. Ele queria o fardo suave e o descanso para a alma.

Num ímpeto, virou-se para a Viajante e, num repente de desejo incontido, perguntou:

— Devo ter esperança?

— Esperança, fé e Amor. A partir do momento que ouviu falar do Caminho, sua fé foi ativada. Se você, crendo, andar no Caminho, como único meio para chegar à Vida eterna, o próprio Amor preencherá a sua vida.

Ele vislumbrava intensa luz. Poderia se esconder para sempre ou se expor por inteiro. O futuro é segredo. Iria arriscar. Num giro de cento e oitenta graus sobre si mesmo, o olhar do andarilho foi direcionado ao alvo.

Ele a seguiu.

Com a nova escolha, sentiu o ar invadindo seus pulmões, recomeçara a respirar. O dia passou a ter um novo brilho. Um caminho vertical se abria diante dele. Agora, não sentia obrigação em andar pelas veredas que havia. O novo Caminho era convidativo. Nunca andara para cima, só tivera lampejos. Seus ombros enrijecidos e cansados penderam um pouco para trás deixando cair a bagagem, seus joelhos arquearam ao chão, seus olhos nas nuvens como quem tinha uma visão. Confessou simplesmente:

— Senhor Dono de Tudo que há, me ajude a caminhar para cima. Estou cansado de andar sem chegar a canto nenhum.

Lágrimas eram rapidamente absorvidas pela pele seca do rosto, como chuva numa terra sulcada. A Viajante o fez entender que fora reconciliado:

— Só quem anda no Caminho tem direito à Herança divina. E durante a caminhada desfruta do fruto da paz, recebe tesouros pela graça. Enquanto caminha receberá a porção certa de bênçãos, mas com perseguições. Estamos lutando contra a gravidade do pecado. O descanso pleno só no Céu. No devido tempo você será recompensado por todo trabalho e fidelidade. Confia e obedece.

— Eu encontrei o maior tesouro que há. Entreguei tudo que tinha por ele: os resquícios que sobrou da minha vida. Enfrentei sol escaldante, frio cortante, vento e mata fechada. Cheguei a ver a morte de perto várias vezes. Hoje, um errante ganhou o propósito de vida e passou a ser conhecedor da Verdade.

A Porta

O Andarilho sonhou conquistar o Reino Celeste e se dirigiu para lá. Os braços estavam mais fortes, pés firmes, cabeça protegida, pensamentos iluminados, coração fervendo de Amor, olhos bem abertos. A Viajante via um novo homem, até o timbre de sua voz soava suave. Um novo Andarilho. Ela riu manejando habilidosamente sua foice e viu um lago reluzir.

— É aqui que fica o velho Andarilho e renasce uma nova criatura que caminha para o Eterno.

Ele viu o lago. Entraram e ela o batizou. Quando imerso, teve uma visão de seu velho eu afundando para o abismo das águas. Emergiu limpo, leve e com a certeza de que havia nascido de novo.

A Viajante se alegrou, mas tratou logo de se despedir:

— De agora em diante siga as pegadas do Mestre do Caminho. – Ela tocou suavemente o ombro dele – Ele agora habita dentro de você e será sua Bússola segura. Esta é a Porta, estreita e escondida aos olhos de muitos, mas você passou por ela. Eu continuo minha Viagem e você trata de seguir a sua, nos encontraremos com Ele. Até logo.

O Andarilho assentiu sorrindo. E não se sentiu só. Ouvia uma voz suave, gentil e educada, passou a reconhecê-la como a de seu Criador, sua Bússola. A voz trazia consigo os mais lindos odores e cores. Ele seguia sem vacilar, alegre por se tornar casa para o Criador de todas as coisas.

O sol brilhou, esquentou o dia. E para surpresa do Andarilho estava cansado, suado e desconfortável. O Caminho da porta estreita era estreito. Tinha algumas pedras e espinhos. Havia uma força gravitacional que o puxava para baixo. Em alguma parte de seu interior queria vislumbrar uma sombra, mas não voltaria. Ele começava a questionar o sentido do sofrimento no Caminho. Ele já queria estar no fim. Segurou sua Bússola mais firme.

Agora tinha um padrão. E era alto. Alcançável somente com a ajuda de quem o fizera. Ele queria mais, se entregaria por completo. Não daria ouvidos à velha vontade do fácil. Viveria o novo todos os dias. Foi então que ouviu uma voz fluindo de dentro como fonte de água que dizia: “Eu compartilho de seus sofrimentos. A estrada que hoje você trilha não é diferente da que trilhei. Siga minhas pisaduras. O final será triunfante.”

Aquelas palavras o fortaleceram e aceleraram o ritmo da caminhada. Seguia firme e paciente com o novo ânimo e disposição. Abriu os lábios numa canção espontânea. A viagem agora estava bela e perfumada.

Ao olhar a margem do caminho observou que no topo dos arbustos havia belos ramos de orquídeas e alguns lírios se abrindo. Era surpreendente. Ele sorriu ante a expectativa do que estava por vir.

As mudanças refletidas em seu interior mudaram o clima e a paisagem ao redor. Todo o calor da aflição, nuvens da dúvida, tempestades do medo e ventanias contrárias cederam lugar à fé. A graça abundava em fachos de luz em seu coração. O Senhor do Caminho supria suas necessidades imediatas e também o contentava. Estava vivendo intensamente cada fase da caminhada. Era grato pelo presente dia.

O Livro

Aproximava-se de uma cidade. Na praça encontrou um homem lendo com avidez. Um livro.

— Que lês?

— O Livro.

Nosso Andarilho continuou com suas interrogações, mas a curiosidade do que aquelas letras diziam continuavam por atraí-lo como por magnetismo.

— Que lês?

— Eu poderia utilizar o resto dos meus dias te explicando cada Palavra aqui escrita. O resto dos meus dias… É com senha que o entendimento vem. Você a tem?

O Leitor continuava enigmático. Mas, o Andarilho certamente precisava do Livro. Os segredos revelados.

— Onde posso comprar.

— Comprar? – O Leitor levantou a cabeça para olhá-lo pela primeira vez. – Nem com todo o dinheiro do mundo você poderá comprá-lo.

O Leitor ria como se o Andarilho tivesse dito algo absurdo. Remexeu em suas coisas e estendeu ao Andarilho o Livro:

— Tome! Este Livro é dado a quem o buscar.

— De graça?

— Sim, amigo. Igual a tudo que o nosso bom Deus nos dá. Mas, não pense por isso que seja vil. Pelo contrário! Troquei tudo que tinha por esta riqueza! Para onde caminha precisará dela: a Palavra de Sabedoria. Agora, vá.

— Não podes me ensinar?

— Sente-se. – O Leitor arrumou espaço ao seu redor. – Ela é o seu Manual. O que não conseguir entender, te será revelado. Basta se aquietar e ouvir a voz que flui em seu interior.

“A minha Bússola!” Lembrou o Andarilho. O Leitor continuava a falar com muitos gestos:

— A Palavra não se contradiz. Leia até sentir penetrando em seu coração e de lá não mais sair.

Num único encontro obtivera o Livro e, mais uma vez, a graça do Criador. Assentado ali perdera a noção das horas, dias talvez. Sua fome, sede, necessidades eram supridas sorvendo a Palavra. Às vezes, ardia como fogo; outras, o refrescava como água. Palavra pura. Ele estava inebriado, atraído cada vez mais.

O Dia da Visitação

A amplidão daquelas palavras o impulsionava a um contato com o Criador. A leitura da Palavra e a prática do diálogo com o Criador eram medidas igualmente proporcionais. Os primeiros raios de luz da graça traziam segurança, confiança e muita alegria. Ele flutuava para além das nuvens. A direção de seu caminho apontava igualmente a dois pontos convergindo dele para o Eterno: para cima e para frente.

Chegou à conclusão de que aquele tesouro escondido pesaria sobre ele: segredos guardados e mistérios desvendados. A vida ficaria melhor se compartilhasse a luz que invadia seu ser.

Entre as surpresas recentes sabia que havia mais. A história do Filho de Deus, que veio do Céu, o tocou profundamente. A missão de caminhar pela terra anunciando o Reino Celeste. Depois, o som de vento e línguas de fogo, um batismo diferente.

Havia um fogo, uma luz, uma voz, que não conseguia mais reter. Palavras perfeitamente inteligíveis em louvor a Deus se tornaram códigos para os demais. À proporção que erguia a voz, o número de curiosos aumentava. Na mesma língua a Palavra ficava marcada permanentemente como ferro incandescente nos corações de quem o ouvia.

O Sonho com o Eterno

Antes do cair da tarde, o Leitor o levou para um local fechado. À entrada havia uma escada para baixo com respingos de chuva. Eles desceram e se depararam com uma janela. “Aquela janela era mesmo pequena e feita com tábuas?” O sábio Leitor abriu a pequena janela e partilhou da grande visão que ela oferecia.

Diferente da cidade – do país! – onde estavam, diferente de tudo que vira, aquele lugar era muito alto. Imponente. Havia grandes palácios de mármores, com cúpulas douradas e arquitetura rica em detalhes. Árvores e ar puro. As pessoas no pátio de um palácio conversavam entre si, pareciam sábios em vestes reais, pequenas quando comparados ao monumento.

Ali era o seu lugar. Virou-se para o Leitor falando:

— É Ela!

— Apenas uma amostra.

O Andarilho se encheu de saudades quando viu o Leitor fechando a pequena janela feita de tábuas.

— Sábio Leitor, meu coração ficou aí.

Eles recomeçaram a subir. O Leitor deu um suspiro e sorrindo falou:

— Como pretende viver de agora em diante sem um órgão de vital importância?

— Este é um pedacinho do Céu na Terra! – O Andarilho estava maravilhado.

— ‘Onde estiver o seu tesouro aí estará seu coração.’ Pelo que vejo seu coração está no Dono dos Céus. Sendo assim um dia vai ficar completo.

— Arrebatado eu espero. Ah, quem me dera asas agora!

— Aguarde! Os séculos serão consumados e Ele prometeu estar conosco durante todo o tempo. Há uma ligação, aí não?

— Eterna.

Epílogo

O Andarilho continua a caminhar por aí aguardando o dia da restauração. E só saberão como viverá no Eterno quem compartilhar de seu trajeto.

P.S.: Um dia desses, eu o vi. Nossos caminhos se cruzaram. E ele me reconheceu como uma caminhante e eu, pasma em vê-lo, decorei cada detalhe seu. Um homem de baixa estatura, magro, pele morena, uma barba rala e grisalha, boné do exército, roupas compridas, um colete impermeável vermelho, alpercatas leves, uma mochila colada às costas, uma vara improvisada de bengala, já beirando a casa dos sessenta e uns anos, mas a alegria de falar do Caminho permanece a mesma. Ele me recomendou glorificar ao Eterno toda vez que alguém me reconhecesse como uma caminhante e também me pediu pra nunca perder a fé em Jesus. Sim, é verdade que os anos passaram para ele, estão voando pra mim, mas a promessa feita por Jesus Cristo – o Caminho, nunca passará. Ele permanece o mesmo sempre, e eu devo cada dia me debruçar em Conhecê-Lo, enquanto enfrento a minha longa jornada.

Baixe em pdf: Andarilho para o Eterno

Mulheres da Bíblia: Rebeca

Este é um excerto do livro de Walter Wangerin “O Livro de Deus: A Bíblia Romanceada“. Conta a história de amor de Rebeca (Gênesis 24). Boa leitura!

LisLand Rebeca e Isaque

Por Walter Wangerin

Nas cercanias da cidade onde o irmão de Abraão, Naor, vivera e morrera, havia uma fonte de água doce. Abundante e confiável, o poço abastecia tanto a cidade quanto os viajantes que por ali passavam, caravanas transportando preciosos bens para leste e oeste.

Para tirar água desse poço, a mulher era obrigada a descer degraus de pedra irregular, ajoelhar-se e mergulhar a jarra na água corrente, erguendo depois o vaso cheio ao ombro para subir novamente os degraus. Logicamente, animais de carga não podiam descer até a grota e assim a água era levada para cima nas jarras e despejada em cochos de pedra talhados ao nível do chão.

Rebeca conhecia bem o poço e a rotina. Diariamente, ao crepúsculo ia com um grupo de amigas tirar água para suas famílias – mulheres jovens e cheias de vida, jarras aos ombros, soltando gargalhadas como bandos de passarinhos. Rebeca caminhava mais silenciosamente que outras. Era alta. Andava com um passo mais longo e gracioso. A testa alta indicava inteligência e um ar de convicção imediata. Mesmo cercada por multidões, essa mulher parecia isolada.

E então, certo fim de tarde, quando as mulheres subiam os degraus do poço com as jarras repletas de água, aconteceu de um velho adiantar-se e falar a Rebeca, como se ela fosse a única ali.

— Por favor – disse ele – será que posso beber um pouco dessa sua jarra?

Nitidamente tratava-se de um viajante, empoeirado da estrada, cansado e bem velho, velho o suficiente para ser avô da moça. Rebeca viu dez camelos ajoelhados aqui e ali, em torno do poço, as cabeças erguidas.

Suas amigas ficaram a observar por um momento, depois se afastaram. Escurecia, e Receba podia tomar conta de si.

— Sim – disse ela, baixando a jarra à mão. — Claro que sim; beba, por favor.

O forasteiro tomou um gole somente, sem tirar os olhos do rosto da moça.

— Vou pegar água para os camelos também, senhor – disse ela.

E foi fazê-lo. Descia e subia os degraus de pedra, despejando água nos cochos. Com o velho ainda a fitá-la, cutucou com jeito um dos animais, que então levantou-se e lentamente foi beber. Os outros o seguiram. E Rebeca continuou enchendo os cochos até que todos os dez camelos ficaram satisfeitos.

Já estava escuro quando terminou.

E quando o velho novamente se aproximou dela, tinha nas mãos objetos tão polidos e bolos que chegavam a brilhar. Um anel de ouro e dois braceletes também de ouro.

— De quem você é filha? – perguntou.

— Sou filha de Betuel, filho de Naor – respondeu-lhe Rebeca.

— Naor – murmurou o forasteiro – conheço Naor. – Pronunciou o nome com tanta emoção que parecia a ponto de rebentar em lágrimas. Alcançou a mão de Rebeca e delicadamente deslizou o anel em seu dedo.

— Será que a casa de Betuel tem espaço para hospedar a mim e minha comitiva por algum tempo? – tornou a perguntar.

— Temos palha e forragem, sim. E espaço, sem dúvida.

Então o velho caiu de joelhos e ergueu os braços, cantando com voz suave:

— Bendito seja o Senhor, o Deus de meu mestre Abraão! Ele me guiou à casa de seus parentes.

Sem erguer-se ainda, cingiu os braceletes em torno dos braços de Rebeca, e disse:

— Vá, por favor. Rogo-lhe que arrume acomodação para passarmos a noite.

O pai de Rebeca estava então idoso e enfermo. Era seu irmão Labão que tomava a maioria das decisões da família. […] Após o irmão ter saído, Rebeca e sua mãe prepararam mais comida.

Algum tempo depois, ouviram a voz de Labão lá fora. Ele mesmo tirava as rédeas dos camelos. Ordenava aos servos que trouxessem água para lavar os pés do forasteiro. E disse:

— Entre, ó bendito do Senhor. Entre e coma.

Mas já dentro de casa, a comida posta à sua frente, o velho recusou-se a comer.

— Não antes de haver proferido minha mensagem – falou.

— Fale então, amigo! – disse Labão.

— Sou servo de Abraão – disse-lhe. — O Senhor abençoou fartamente meu amo com ovelhas e bois, com ouro e prata, servos, criadas, camelos e burros.

— Mas Abraão – continuou – tem só um filho, Isaque. E me fez jurar, na terra de Canaã, voltar a esta terra e à casa de seus parentes, aqui, a fim de encontrar uma esposa para Isaque. Hoje mesmo chegue ao poço próximo à sua cidade e orei a Deus para que trouxesse êxito à minha missão. Eu disse então: “Ó Senhor, quando eu pedir a uma moça que me dê de beber, se ela disser: ‘Beba, que vou tirar água para seus camelos também’, seja ela então a mulher que o Senhor escolheu para o filho de meu amo”. E eis que, antes ainda que eu tivesse acabado de orar, apareceu sua irmã. Veio Rebeca. Veio aquela bela mulher e fez tudo o que eu havia pedido ao Senhor. […]

— Rebeca, filha de Betuel – disse ele. Ela deu alguns passos em direção à luz. — Receba estas coisas. – E então lhe entregou jóias de aro e prata, além de vestidos finamente tecidos. Deu também presentes caros ao irmão e à mãe da moça.

Afinal, comeu a ceia.

Na manhã seguinte, disse aos anfitriões:

— Peço que me permitam voltar agora a meu senhor. Ele é velho e não poderá viver muito mais.

— Ah, senhor, não! – disse-lhe Labão. – Deixe que a moça tenha tempo para se despedir. Seja nosso hóspede enquanto isso. Pelo menos dez dias.

— Por favor – disse o servo – A jornada é longa. Logo vem a estação das chuvas. Por favor.

— Que Rebeca decida, então – respondeu Labão.

— Eu vou – pronunciou-se Rebeca, imediatamente.

E assim Rebeca, essa mulher de convicção ligeira e total autoconfiança, em uma noite e um dia transformou sua vida desse ponto em diante e para sempre.

No mês que se seguiu, Rebeca e o velho servo viajaram de sua casa em Padã-Arã pela mesma estrada que o próprio Abraão havia tomado há mais de 65 anos – um longo caminho rumo ao sul. Cruzaram o rio Jordão em Sucote e avançaram ainda mais para o sul, além do Mar Morto, chegando ao Negueve.

Ao final da tarde do trigésimo dia, quando os camelos moviam-se com exausto langor, Rebeca ergueu os olhos e viu um homem caminhando sozinho pelos campos, a cabeça baixa, meditativo.

— Quem é aquele? – perguntou.

Apeou do camelo e dirigiu-se ao velho servo de Abraão:

— Vê aquele homem ao longe? – perguntou. — Quem é ele?

— Ah, é o filho de meu senhor. Aquele é Isaque.

Então Rebeca cobriu o rosto com um véu e aguardou ser vista pelo homem que se tornaria seu marido.

No Negueve, então, Isaque levou Rebeca à sua tenda, onde a tomou por esposa, e ele a amou de todo o coração. Jamais amou outra enquanto viveu.

— Assim que vi essa mulher em pé, alta, ao lado de um campo branco, apaixonei-me por ela – disse ele.

Tinha 40 anos na época.